"Sailing" - A canção que ficou

   Era impressionante como certas canções traziam pessoas para a vida de Júlia. Sailing era uma delas, bastavam os primeiros acordes e aquela saudade do que nunca existiu vinha incomodá-la de uma forma insuportável.
  Mas hoje a dor veio diferente, dessa vez doeu de verdade, como nunca tinha doído antes... Qual o motivo? A quem ela quis enganar por todos esses meses? Fazer de conta que era possível estar ali sempre por perto e achar que isso nunca ia incomodar? Como era tola...
  Naquele momento tudo que vinha a cabeça dela era "Como faço pra desaparecer? Como me livrar de algo que não deveria estar ali?"
   Ela tinha prometido a si mesma abandonar o coração... De nada adiantava passar dias cantando com o Renato "Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei...", se era só da boca pra fora... Ela não aprendeu nada, continuava a mesma tonta de sempre. Se prendendo aos pequenos sonhos, migalhas, faíscas que só ela era capaz de enxergar. Cada centelha enchia o coração daquela tonta de esperanças, criava um mundo de sonhos...
  Dizem os sábios modernos: "Plante batata-doce, crie dinossauros, crie unicórnios, mas não crie expectativas". Mas parece que esses eram os animais de estimação preferidos de Júlia... Embora escondida atrás de uma profunda amizade, as malditas expectativas estavam lá... Amigos, quase irmãos, cúmplices, que nada... Ela ainda tinha sonhos... Os sonhos são seres andróginos, de uma lado carregam uma face de esperança que nos enche de desejos e do outro a face da dor, da queda, que pode até matar os mais desavisados...
  Mas sempre chega a hora de ver, sempre chega a hora em que a verdade dá na sua cara e te faz enxergar o que você tentava esconder de si mesmo. Com Júlia não seria diferente.
  Até aquele momento, observar o voo, ver o navegante partir sempre "Sailing" pelo mundo, pela vida, nas suas viagens diárias, nunca tinham causado nenhuma dor... Estava conformada com o posto que ocupava.
 Só que de repente incomodou, ver o voo doeu, sentiu uma pontinha (um iceberg) daquele monstrinho verde destruidor...  E assim quis a vida que ela percebesse a burrice que estava fazendo e a dor que estava impondo desnecessariamente a si mesma.
 Mas se tinha algo que Júlia havia aprendido foi a levantar, a mudar de rumo... Era a sua hora de entrar no barco e partir, a sua hora de se sentir livre, de se libertar "and sailing"...
  Era a hora de se afastar, abandonar o barco em que na verdade nunca esteve de fato, tirar-se do foco pra apagar uma chama que não devia estar acessa, era desleal da parte dela alimentar aquilo.
  Acho que era isso que mais a machucava, saber que estava sendo desleal, sempre soube que aquele lugar não era seu, nunca houve mentiras, nunca houve promessas, só um carinho sincero, uma preocupação e um cuidado raro, apesar das exorbitantes diferenças (políticas, culturais, religiosas, familiares, etc). Talvez por isso ela tenha se confundido nos próprios sentimentos... Como podiam dois mundos TO-TAL-MEN-TE diferentes se entrosarem de forma extremamente simples? Isso era algo que Júlia jamais seria capaz de explicar.
  Tudo que ela sabia era que era hora de deixar a cena, de sair, se afastar... Hora de se proteger, levantar sua guarda novamente... Era mais seguro estar protegida novamente.
   Ela ainda se perguntava o que iria acontecer. Qual seria a reação? Como ficariam as coisas dali a diante? Era hora de abrir mão da proteção, da segurança física que aquele lugar lhe proporcionava, para proteger o coração de mais uma queda, de um sentimento que ela jurou pra si mesma que não sentia, mas que doía profundamente a cada foto, a cada voo narrado, a cada encontro. Era hora de se levantar e partir. Ele continuaria "sailing" como sempre, sem limites, sem freios...  
  Ela sabia que ainda ia chorar muitas vezes ao ouvir certas músicas, certas canções, o maior elo dessa história sem sentido sempre foi a música. Ironicamente compartilhavam a mesma paixão (a vida gosta de dar uma zoada com a cara da gente, era o que Júlia pensava naquele momento). 
  Então nada restava a fazer... Era dar fim a um sonho que nunca seria real and "SAILING".  
  


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