Professora sim e com muito orgulho!!
Uma das maiores alegrias da minha profissão é saber que de alguma forma positiva contribuí para o desenvolvimento de alguém; ainda que não seja uma contribuição muito grande, o prazer de contribuir na vida de uma pessoa não tem preço.
Hoje por exemplo estava em um ônibus indo a uma consulta e encontrei um ex-aluno que fez questão de vir falar comigo e me cumprimentar. Respondi o cumprimento, lembrei dele e do seu nome (graças a Deus a idade ainda não deu perda total nas minhas memórias) e fiz questão de perguntar como ele estava. Ele me respondeu todo orgulhoso que estava trabalhando numa área que ele gostava muito, que estava se saindo bem, correndo atrás de um bom desempenho para obter um crescimento na empresa e, mais orgulhoso ainda, disse que estava tendo êxito nesse empenho. O mais engraçado foi ouvi-lo dizer "tá vendo professora, nem pareço mais aquele aluno preguiçoso que nunca queria fazer nada."
E assim ficamos conversando, ele contando que tinha saudade daquela época (pensei na hora que eu também tenho saudades da época em que estava no ensino médio, só faz um pouquinho mais de tempo que eu terminei o meu, mas só um pouquinho). Ele falou com muito carinho sobre outros professores, lembrou de trabalhos que fez e que o marcaram de alguma forma e me fez refletir sobre o papel do professor.
Fiquei pensando em como é estranho ser professor hoje em dia. Lembro-me que, quando terminei o ensino médio, ouvi muitas pessoas, ao saberem da minha opção pelo Curso de Letras, olharem para mim espantadas e dizerem: " Vai ser professora? Uma menina tão inteligente!". Todas as vezes que me lembro dessa frase, bate uma certa revolta, afinal ser professor é uma opção, não uma daquelas escolhas que se faz por falta de opção. Isso a dezesseis anos atrás. (Deus já faz tanto tempo? Estou mesmo ficando velha!!!) Fico imaginando o que devem dizer a uma jovem hoje que escolhe ser professora (se a colocarem numa camisa de força não será nenhuma surpresa).
Lembro-me que quando era pequena ( não vou dizer a quantos anos atrás porque já chega de lembrar que estou ficando velha), era mais comum ouvir as pessoas dizerem que desejavam ser professores. E sei que há muito tempo atrás (e aí ponha bastantes muitos nessa frase) ser professor era motivo de honra.
Até imagino, fulano passava na rua e alguém dizia: "Está vendo Fulano? É professor, orgulho da família!" ou "Minha filha será professora, uma honra para todos nós". Ser professor era uma profissão sinônimo de sabedoria, de dom, quase um sacerdócio.
Hoje em dia nada disso é lembrado (talvez só a parte do sacerdócio, e por isso sempre preferem nos pagar tão pouco, para contribuir com o nosso voto de pobreza - Deus me perdoe)
É triste ver que a sociedade seja incapaz de perceber a importância de um bom professor, somos chamados de preguiçosos, que fazemos greves pois não gostamos de trabalhar, que reclamamos de barriga cheia e somos culpados por todo o fracasso dos jovens do país (não importa que a família os tenha abandonado, ou que não tenhamos recursos para oferecer algo mais atraente a eles)
Somos cobrados todos os dias com metas absurdas e uma meritocracia que não leva em consideração que bons alunos não são artigos produzidos em série como carros, bolsas etc. Somos responsáveis por coisas cuja função de ensinar caberia a família e nós seríamos apenas um ponto de apoio.
Somos submetidos muitas vezes a condições desumanas: salas insalubres, sem ventilação, falta de material para trabalhar (e nesse caso não me refiro a computadores e equipamentos de última geração, há colegas que reclamam de escolas onde faltam cadeiras para os alunos, canetas para escrever no quadro ...), temos turmas com mais de 40 alunos ( o sistema não permite turmas com número inferior a 35 alunos).
Tudo isso parece bobagem, mas como um trabalhador de uma montadora construiria seus carros se faltasse um único parafuso? O que faria um construtor se a areia e as pedras chegassem misturadas ao canteiro de obra? Com certeza ele não poderia desempenhar sua função com a mesma qualidade, ou talvez nem pudesse cumpri-la.
O mesmo ocorre no caso do professor. Como podemos fazer aulas dinâmicas, atrativas se a maior parte das escolas tem apenas um equipamento de projeção para todas as turmas da escola e precisamos organizar uma agenda para utilizá-lo? Até mesmo para fazer cópias as direções das escolas são obrigadas a impor limites, pois não podem dispor do material de forma ilimitada.
Como podemos dar atenção diferenciada a cada aluno, se temos sempre muitos deles em sala? Como mantê-los atentos durante cerca de 5 horas em um calor insuportável (a climatização ainda não é uma realidade em todas as escolas do país)? Como produzir um trabalho de excelência se para (sobre)viver com um pouco mais de dignidade nos vemos obrigados a trabalhar em pelo menos três escolas?
Enfim é muito triste o tratamento dado a educação no nosso país, principalmente a educação pública, não há uma preocupação em oferecer o básico a população, em oferecer oportunidade de que a população tenha qualidade de ensino.
Mas apesar de tudo isso, tenho muito orgulho de ser PROFESSORA, pois cada vez que um aluno posta uma mensagem de agradecimento seja para mim, seja para um colega, vejo que nossa luta não é em vão, e que se conseguirmos contribuir para a formação de um único cidadão crítico e consciente todo o esforço terá valido a pena.
Colocações EXCELENTES! Penso exatamente assim! Tem horas que desanimo, tem horas que ganho gás novo pra continuar...
ResponderExcluirSempre pensei que teriam orgulho de mim porque eu seria professora...mas debocham da minha cara. E eu fiz Letras (já riam disso) e quando eu resolvi fazer Pedagogia, riram mais ainda da minha cara.
"Dar aula pra criancinha? Credo!" é isso eu escuto. Mas eu tenho aprendido muito com os meus pequenos, principalmente esse ano.
Professor deveria ser super valorizado. Não é só uma questão salarial, não. Essa parte é muito importante, claro. Precisamos viver! Mas reconhecimento, valorização, material adequado de trabalho...
Belo texto!
Belas reflexões!