A maldição das entrelinhas

   Qual de nós nunca teve um professor de português, literatura e outras - qualquer coisa que envolva interpretar um texto - que já não tenha ouvido zilhões de vezes que "precisamos aprender a ler nas entrelinhas"? Ler o que não foi dito, o que não foi escrito, o que está subentendido...
    Quando se trata de um texto, seja ele de que gênero for, é preciso buscar informações, hipóteses, caminhos de leitura... Mas, ainda assim, essa leitura muitas vezes não será a mesma para todos os que lerem um mesmo texto. Nosso conhecimento de mundo, nossas experiências de vida, interferem de forma direta na leitura. Faça a experiência de ler um livro que você tenha lido na adolescência - não disse reler, porque a leitura não será a mesma. Você vai constatar fatos, fazer inferências que você nem sonhava possíveis. Assista uma comédia pesada com uma criança pequena, ela pode até rir, mas não vai pegar o sentido real das piadas porque aquilo não faz parte do seu conhecimento de mundo.
   Bem, mas enfim... Você deve estar se perguntando se isso é uma crônica ou uma aula de leitura... Explicarei onde quero chegar.
   Sabe lá Deus o porquê, mas parece que levamos para as nossas relações pessoais a "leitura das entrelinhas" - por isso chamei meu texto de "A maldição das entrelinhas", entendeu? Quantas vezes ficamos nos perguntando "O que será que Fulano quis dizer com isso?", "Por que será que ela está mentindo?"- penso que nessas horas o Dr. Cal Ligthman e os traçadores de perfis do CSI ficariam espantados com as teorias mirabolantes que criamos, enquanto tentamos ler nas entrelinhas dos outros.
   Em um mundo onde a comunicação tem sido cada vez mais indireta (facebook, wathsapp, messenger), essas entrelinhas podem criar transtornos espantosos... Fulano te diz "Bom dia", mas não põe o ponto de exclamação e pronto... "O que será que eu fiz? Por que está triste comigo?". Há quem consiga achar diferenças quando a pessoa usa "kkkkk" ao invés de "rsrsrs" ou "hahaha" - a imaginação do povo é realmente muito fértil.
   E aí esquecemos que nas nossas relações pessoais é uma inutilidade tentar descobrir se quando a criatura diz que "um amigo disse", ela está realmente falando de um amigo ou do mais novo crush... 
   Estou escrevendo porque andei refletindo hoje mesmo sobre esse assunto. Não estou distante dele, acho que poderia até dizer que sou especialista em me sentir o próprio Sherlock Holmes quando o assunto é a entrelinha alheia. Entro numa corrente de "decifra-me ou te devoro" sem fim e chego a hipóteses várias (sempre as piores possíveis - ver o copo meio cheio nunca vem à mente) e nunca saio do lugar - isso quando não tento me defender do que nem foi dito (e lá vou eu em mais um momento javali selvagem na lojinha de cristais).
   Mas a vida sempre ensina... Conto-lhes uma historinha para ilustrar: "Estava a criatura com uma situação mal resolvida, se sentindo a pior das pessoas, tentando descobrir o que tinha feito, onde foi que havia errado (Oh, vida! Oh, céus! Oh, azar! - Tem gente que pensa que "King of pain" foi escrita em sua homenagem). Então, estava já a criatura cantando Marília Mendonça e Nayara Azevedo, numa sofrência de fazer inveja, por estar vendo uma situação quase idêntica se desenhar na sua frente... E eis que surge a brilhante ideia "Por que não perguntar ao outro o que houve? - adivinhar deixe para aquele pessoal que faz mentalismo nos programas de mágica. 
   Pois então a criatura perguntou e obteve uma resposta tão tosca e tão simples que se tivesse perguntando antes teria economizado meses de sofrimento inútil ( e os ouvidos dos vizinhos que já acordavam cantando "Deixa! Deixa mesmo de ser importante... Vai deixando a gente pra outra hora"...)
   Então larguemos das entrelinhas... isso vira uma maldição digna de uma esfinge daquelas bem clássicas. Não tentemos adivinhar o que raios Fulano quis dizer e nem fiquemos esperando que Fulano descubra o que nós queremos sem que a gente tenha dito (a comunicação telepática é coisa pra muito poucos - não há um professor X do outro lado da sua tela que será capaz de ler o que você não disse).
   Uma terapeuta que tive há uns tempos atrás dizia que o "Não dito" é a pior de todas as coisas, porque o outro faz a sua leitura do que ele está vendo (e a leitura será de acordo com o  conhecimento de mundo dele, a  experiência de vida dele - quanto desastres, verdadeiras tsunamis emocionais podem surgir numa hora dessas.) 
   Então o grande lance é, nas relações pessoais, dizermos tudo que desejamos que o outro entenda, e não tentar ler as entrelinhas dos outros, não entendeu abra a sua boca e pergunte (ou pegue seus dedinhos e  escreva a pergunta - bem explicadinha de preferência).
  Entrelinhas nunca mais...


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