Um encontro ao luar
Um sonho? Um encontro? A voz do destino? Uma lembrança? Mesmo depois de quase um dia inteiro, ele não havia conseguido achar uma resposta para todas aquelas perguntas... Nada era capaz de explicar o que ele tinha vivido naquela última noite.
A única certeza era a de que jamais esqueceria daquele momento, daquela mulher e de tudo que haviam trocado sem dizer uma única palavra...
Deitado em sua cama, depois de um banho frio e de já ter terminado todos os compromissos daquele longo dia, resolveu ouvir umas músicas, enquanto conversava com seus amigos pelo celular.
Estava particularmente tenso. O velho ar-condicionado fazia seu estrondoso barulho de sempre e ele, que já estava perfeitamente habituado, naquela noite estava impressionantemente incomodado.
Pegou na gaveta os fones de ouvido para se isolar do barulho. A noite estava estranha. Ele não sabia bem o porquê, mas a solidão doía de uma forma tão intensa que quase lhe fazia sangrar.
Foi então que tudo aconteceu... Na parede vazia a sua frente, uma cena se desenhava: uma linda mulher sentada à beira-mar, com a cabeça baixa deitada sobre o próprio joelho, sob a luz de uma imensa lua cheia. Vestia uma camisa azul e uma longa saia preta, como se tivesse saído de uma tribo cigana. Sentada na areia, olhando para a areia e para o mar que tocava seus pés lenta e suavemente.
Tudo permaneceu assim... parado no tempo por alguns minutos, talvez horas... era tudo tão relativo...
De repente, ela se virou e, como se tivesse se assustado, percebeu a presença dele. Ele, por sua vez, ficou muito assustado. Como podia a ilusão que sua tristeza havia criado estar olhando pra ele? Como podia perceber aqueles olhos negros, que traziam em si tanta tristeza, olhando tão firmemente para os dele?
Achou que estava surtando...
Tudo ficou ainda mais estranho quando ele percebeu que o quarto estava inexplicavelmente frio, como se a brisa do mar tivesse tomado conta de todo o ambiente...
Levantou-se da cama para desligar o ar-condicionado, na intenção de desfazer aquela ilusão, mas de nada adiantou. Inesperadamente percebeu que seus pés pisavam a mesma areia onde vira o seu anjo sentado à beira-mar... Ele caminhou em direção ao local onde ela estava sentada; mas, antes que pudesse alcançá-la, sentou-se e ficou observando aquela mulher.
Ela tinha longos cabelos negros como uma noite sem luar. Os cachos caiam sobre os ombros e algumas mechas cobriam o rosto em diversos momentos. Era bonita, mas uma beleza suave e leve que encantava pela sua simplicidade.
Mas nada prendia mais do que aqueles olhos negros, falavam por si e traziam naquele momento a mesma tristeza e uma solidão tão intensa quanto a que ele sentia.
Era tudo tão forte e ao mesmo tempo tão mágico que já não sabia mais onde estava a linha que separa imaginação e realidade.
Ela se levantou e eles se olharam tão intensamente que se entenderam sem dizer uma única palavra. Como se o luar, a brisa e as ondas do mar formassem uma orquestra que tocava um lamento que apenas os dois fossem capazes de ouvir, ela se pôs a dançar.
Era a mais linda cigana que ele já tinha visto...
A longa saia rodopiava refletindo a luz do luar, ao mesmo tempo que era beijada pelas ondas do mar que iam e vinham como se dançassem com ela. As mãos se mexiam ora suavemente, ora com tamanha intensidade que pareciam querer alcançar as estrelas.
O ritmo daquele lamento ia aos poucos se tornando mais intenso e, a cada mudança no compasso, ele podia ver mais e mais lágrimas rolando pela face dela. Parecia que a canção do mar tentava libertá-la de toda aquela dor.
Aos poucos ele foi sentindo seu coração transbordar e foi criando coragem para se aproximar do seu anjo que dançava a sua frente. Ele já não sabia mais se era real ou sonho, precisava descobrir...
Tomado de uma sensação que ele não sabia explicar, um misto de desespero e de cumplicidade, abraçou-a com toda força que tinha, envolvendo-a completamente naquele abraço-casa
Aquele longo abraço durou por muitos minutos, o rosto dela encostado em seu ombro...
Afastaram-se por um instante, olharam-se nos olhos... Aqueles olhos negros, agora tão de perto, o prendiam de uma maneira assustadora. Ela era capaz de expressar tudo que sentia, de fazê-lo sentir-se seguro e protegido, de mostrar toda a intensidade daquele momento, sem dizer uma única palavra, os olhos falavam em seu lugar... Traziam toda a paz que ele precisava naquele momento para apagar a solidão que ainda doía.
Tudo terminou num beijo delicado e suave, mas ao mesmo tempo cheio de sofreguidão e intensidade...
Comentários
Postar um comentário